segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

{resposta} "O SAGRADO FEMININO: OLHANDO PRA ALÉM DO PRÓPRIO ÚTERO"


Achei muito interessante os questionamentos no "Blogueiras Negras" sobre o movimento do "Resgate do Sagrado Feminino" (RSF), aposto que são os mesmos questionamentos de muitas pessoas, inclusive, no mesmo dia recebi três mensagens de mulheres diferentes à respeito d artigo: http://blogueirasnegras.org/2017/01/31/o-sagrado-feminino-olhando-pra-alem-do-proprio-utero/

Ensaio responder cada um desses questionamentos, na minha visão de mundo (sublinho que não pretendo representar a visão das mulheres envolvidas com os trabalhos do RSF). Percebo que a autora do texto tem suas próprias convicções sobre a polêmica, porém discordo de algumas e explicarei o porquê.

- Sobre a biologização do corpo no sagrado feminino: não é apenas corpos de genótipo "XX" que podem vivenciar o sagrado feminino. O que ocorre, é que as técnicas e práticas utilizadas atualmente nas ditas "rodas de mulheres" tem uma origem que retorna até os períodos Paleolíticos e Neolíticos, passando por outras culturas da Idade Antiga, especialmente as culturas greco-romanas, orientais (especialmente indianas) e de alguns povos nativo-americanos. Logo precisamos situar historicamente essas práticas, entendendo que em muitas dessas sociedades, o gênero feminino correspondia ao sexo feminino, e o gênero masculino correspondia ao sexo masculino, sem variações. Havia também uma forte divisão sexual do trabalho, o que responde a outra indagação, sobre a "essencialização" das características femininas, como "cuidadora", "maternal", etc. Aqui tenho dúvidas se a blogueira conhece as faces do sagrado feminino, pois a "Mãe" é apenas uma das 3... ou 9... ou até 13 faces. E ainda, se conhece profundamente o que significa a face da Mãe (que não se refere apenas a maternidade).

-Sobre a menstruação: os trabalhos dentro dos círculos de mulheres com a menstruação se restringe ao sangue, seus poderes e seu ciclo. Sobre coletor menstrual e absorventes de pano, é algo auxiliar e nunca foi e nunca será parte dos mistérios do sangue. Faz uso dessas formas de higiene quem quer fazer, e ninguém é obrigada. Agora, o que tentamos conscientizar as mulheres que buscam um auto-conhecimento e um caminho de respeito à Natureza (que é vista por nós como Sagrada), é que parem de usar absorventes descartáveis para diminuir a destruição do corpo de "Gaya" (basicamente isso). Mas novamente, ninguém é "obrigada" e ninguém é menos mulher por usar absorvente descartável.

-Achei curioso a autora se referir à "tenda vermelha" com ironia. O que ela diria sobre os 21 dias de reclusão da/o iaô no Candomblé? É exclusão social também? Gostaria de saber a opinião dela. E mais uma vez, ninguém é obrigada, cada uma faz aquilo que está ao seu alcance, e ninguém precisa deixar de trabalhar o sagrado feminino dentro de si porque tem uma jornada de "30h por dia".

-Antes de terminar a parte divergente, gostaria de me aprofundar um pouco mais na questão das mulheres de outras corporalidades e até mesmo nos homens dentro do trabalho de Resgate do Sagrado Feminino:

Acreditamos que todos os seres (humanos, animais, plantas, pedras, etc) possuem o feminino e o masculino em si. Pois o masculino e o feminino são apenas polaridades energéticas contrárias e complementares, assim como o Yin e o Yang.

Visto isso, uma mulher trans, uma mulher homoafetiva, um homem, enfim... todos os tipos de gênero e orientações sexuais carregam em si as duas polaridades que funcionam em um equilíbrio dinâmico. E aqui eu abro um parêntese sobre equilíbrio dinâmico para entender algo mais à frente: equilíbrio não quer dizer 50% uma coisa 50% outra... quer que as duas energias estão sempre num movimento que TENDE ao equilíbrio. 

Mas...realmente! Por que será que estes círculos são geralmente exclusivos para mulheres nascidas mulheres?

Não posso responder por todas, mas acredito que, como crianças, estamos reaprendendo a desenvolver uma consciência que perdemos. E qual é o caminho mais direto e mais fácil de se fazer isso? O CORPO. Não existe como negar a contribuição do corpo para nossa existência. A corporalidade é o mecanismo imediato de contato com o universo. 

Logo, a maneira CORPORAL de trabalhar o RSF vai ser diferente em cada um desses diferentes corpos. E não apenas: é diferente em cada pessoa, mesmo que sejam duas irmãs gêmeas. A mulher tem um corpo diferente do homem, que tem um corpo diferente dos homens e mulheres trans, que tem um corpo diferente de uma menina que ainda não menstruou, que tem um corpo diferente das pessoas hermafroditas... enfim, não existe apenas duas corporalidades, existem diversas... e cada uma delas é um mecanismo diferente de receptividade do universo.

Então 1o ponto que precisa ser entendido: a experiência corporal é importante no resgate do sagrado feminino e cada tipo de corpo (com utero, sem utero, com utero não funcional, com utero e pênis.. enfim) deve ser trabalhado de um jeito.

A partir daí, 2o ponto que precisa ser entendido: o resgate do sagrado feminino é um movimento espiritualista quase 100% baseado em tradições antiquíssimas, sociedades que não sabemos como realmente funcionavam, só temos pistas, e sabemos que havia uma forte divisão sexual do trabalho: homens eram caçadores e guerreiros, e mulheres coletavam e plantavam e cuidavam das crias. Basicamente isso. Os papéis sociais neste tipo de sociedade eram muito mais simplificados, não tinha-se a gama identitária que se tem hoje.

Daí que está: nos círculos de mulheres da sociedade contemporânea, estamos pegando um "quadrado" e tentando encaixar num "círculo". Ok, o quadrado cabe no círculo, mas vão sobrar arestas, e nós temos que aparar essas arestas. Mas os antigos não nos ensinaram isso, nós temos que aprender sozinhos, captar a "alma" da coisa e fazer adaptações e invenções. 

Traduzindo:
Homens e mulheres trans não tem útero, obviamente não poderão trabalhar os mistérios do sangue menstrual. Eles e elas tem menos feminino dentro de si por causa disso? NÃO! Feminino, como eu disse, é uma energia, não corresponde obrigatoriamente a sexo ou gênero.

Mas a mulher é, ARQUETIPICAMENTE, a REPRESENTAÇÃO da energia feminina (presta atenção nas palavras em caixa alta). Isso não significa que ela CORRESPONDA a isso, nem significa que haja EXCLUSÃO das outras identidades de gênero.

Mas deixa eu contar uma coisa para vocês: não é todo mundo que está disposto, ou melhor, disposta, a se aventurar nessa diversidade de identidade de gênero. Eu mesma, no começo, não estava. É muito mais fácil juntar um monte de mulheres com úteros (funcionais ou não) e repetir o que se faz há mais de milênios. É uma receita que a gente já sabe que dá certo. Mas também não faz sentido ignorar o que existe hoje. O mundo é composto de outra forma, com outras corporalidades... e já que o RSF se empenha tanto em mudar o mundo, é necessário que ele próprio mude também... ou pelo menos se atualize. E né fácil não! Por ex.: como trabalhar com a influência da lua sobre os ciclos femininos com homens ou trans? Eu não sei, ainda estou descobrindo. E acho importante descobrir. Essa descoberta definitivamente não está nos livros. Vamos ter que fazer isso ao vivo e a cores, juntos e precisaremos muito dos/das "pessoas-que-não-são-mulheres-com-útero" para isso.

Agora para não dizer que sou "do contra" rs... eu concordo que o sistema universal de saúde deveria ser mais justo socialmente e oferecer um serviço de qualidade às mulheres em situação de vulnerabilidade. Não é justo que apenas as mulheres com acesso ao serviço particular possam escolher o parto natural.

Também não posso negar a perigosa mercantilização do Sagrado Feminino por alguns grupos (vide Mandala da Prosperidade) e também o "branqueamento" dos círculos do RSF. Isso é algo que deve ser amplamente discutido e devemos buscar soluções de forma horizontal. Devemos procurar saber: por que há menos negros e negras participando desses grupos, por que há menos pessoas de classes sociais menos abastadas participando desses grupos?

Cordialmente,

Luiza - Anajé.










Um pouco sobre mim: Anajé, pagã piaga, bruxa, antropóloga, aprendiz de permacultora, tem orgulho do sangue tupi em suas veias, co-administradora da loja Magia de Quintal, uma das condutoras do Círculo das Marés - círculo misto de resgate do sagrado feminino em Parnaíba-PI.

2 comentários:

Lara Elisabeth disse...

<3 ^_^ Eu amo fazer parte de um círculo que busca no conhecimento, desfios necessários para a desconstrução de uma construção social exclusiva... Obg ;)

Lu Falcoa disse...

Eu partilho o mesmo sentimento, Lara =D